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| o trompetista gago: :reuben |
PENSANDO EM MÁRIO VARGAS LLOSA
O céu não vai ceder ,Cordélia cospe pro amanhecer nubloso. Ele o céu arrota bom dia num estrondo e a chuva discute com a boca do mundo, bem ali na parte do mundo que ela Cordélia calçaria.
Dia de greve, motorista de ônibus morto quando o remendo na avenida desremendo, ontem se disse que uma hora destas já estariam todos no palácio do podrer, os grevoltados. Cordélia não iria, é claro que o colégio não abriria, e se abrisse pai nenhum levaria filho nesse dia nenhum pra aprender língua estrangeira que fosse, que dirá o inglês que dizem out of season, mas Cordélia pensa toda língua vale a pena nas mãos de seus poetas, na pena de seus poetas, trocadilho brega, pensa. Última noite fria como todas as, como todos os céus são criativos, de nuvens ou sem, devia tanto àquela orgia de sopros e formas. Como a embriaguez a Baudelaire. Quando chove é o céu quem está no limite ou a terra quem implora, pela puberdade da grama, pelo arrepio das encostas; é a terra quem implora ou o céu quem quase perde o firmamento de tanto orvalho preso na garganta?
Chuva; café e esteira, vício e viço; olha lá fora e parece aquela Catedral quem será que pintou ,em mancha e risco; viola (violona?) com os acordes que sabe, com aquelas três músicas que Ele ensinou pagando as aulas de xadrez, tem aquela que o Lobão diz eu tô chovendo muito mais do que lá fora ,que ela não sabe o resto da letra, e também não era ela mais chuva que aquela violência atrás da janela. Aquela Catedral quem será que pintou ,e nem adianta botar o disco agora pra lembrar da letra toda que a chuva pede silêncio num pedido tão que não tem como não; desliga, liga o computador: tradução é o melhor emprego apesar de não existir tradução ,ler em casa os seus poetas, ainda mais agora que chuva; Blake vê a Capela ela pensa na Catedral, quem será ;a coordenadora pedagógica no telefone, por que não foi, estava doente , não, só chuva e um buraco no chão que matou o motorista e não tem quem tire os curiosos de lá do sangue seco e dos destraços, todos eu vi, eu vi, e foi assim assado , mas se não era doença levaria falta e não receberia o bônus de incentivo , ta bom.
Chuva; a Catedral, A Catedral; Blake pintava e escrevia, ela traduz Blake e pinta
Cordélia pinta e borra o atrás da janela, fidelidade possível ao alimento da terra
Escrito por quem gritou foi o reuben da cu às 18h13
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MALONE MORRE. O ROMANCE TAMBÉM.
Que tédio. O homem deitado sobre a cama atravessou um século, quase. Não sabe de quem é a cama, ou a casa que abriga a cama. Enxerga e escuta muito mal. Apenas os braços ainda se movem. Nada quer, nada pode querer. Ele vai nos contar algo. Sua situação atual, algumas histórias, o inventário de seus bens. Ele sente que está cometendo um erro. “Seja”.
James Joyce já havia matado o romance. Em Malone Morre, Samuel Beckett violenta o cadáver. Não há enredo. Malone deixa claro nas primeiras linhas do livro: poderia se matar naquele mesmo dia, mas prefere se deixar morrer. O que narrar, então? Não há sequer narrador. Sua fala é intoxicada de expressões como “deve ter sido assim”, “se meus olhos não me enganam”, “se bem me lembro”, que ridicularizam o próprio ato de narrar. Malone nada sabe de si, pouco sabe de seus personagens. Recria seus personagens, se enfada, cala. Se Malone é narrador, ainda não há narração. E isso é o de menos.
Escrito em 1948, em francês, e logo traduzido para o inglês pelo próprio autor, Malone Morre é desiludido como o mundo pós-45. Tenso como a geração que espera a próxima nuvem atômica. Beckett é herdeiro direto das experiências joyceanas. Mestre, como Joyce. Irlandês, é o inglês sua língua-mãe. Mas data de 1943 seu último romance escrito nesta língua, Watt. A partir daí passa a escrever originalmente em francês. Paulo Leminski diz que não há exílio pior que o exílio da língua. Por que Samuel Beckett escolhe o exílio? Talvez pelo amor indisfarçável que nutria pela França, e pelo igual desprezo pela Irlanda (“prefiro a França em guerra à Irlanda em paz”, diria). Muito provavelmente para se livrar do espectro do outro irlandês, o do Ulisses. Por melhor que falasse o francês, não teria nele a fluidez ou a riqueza vocabular que teria no inglês. Escrever em francês sempre seria penoso, árido, árduo. Isso, em Beckett, é intenção estética.
A escrita de Samuel Beckett é como a melhor prosa do século XX: prosa de poeta. Beckett escreveu e traduziu poemas, tinha a consciência de linguagem dos poetas. A aridez de escrever em francês seria terreno fértil para que lapidasse cada palavra, para que não passasse despercebido por nenhuma delas, como é hábito humano passar batido pelo que já conhece. Como diz Paulo Leminski, “Malone morre. Malone Morre, não”. O romance morreu. O que nos resta? A linguagem. Como na poesia, a linguagem carregada de significado, o texto onde toda palavra é necessária. Não por acaso a aridez, o esforço pela palavra. Não por acaso a concisão extrema, a paupéria, mais que a pobreza, para falar do vazio.
Escrito por reuben da cunha às 17h33
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MARCO ZERO
Pronto. Casa nova. Acho que aqui dá pra publicar os poemas. Então vamos lá:
fotografia azul n°2
abre os olhos
Sóis
luzes na sala de Seda
a saudade é um desejo azul
música do mar
sarrando o vento
p o e ira de ó p i O o r v a lho sobre a cidade
os
sentidos
sinestesiam-se
as mãos seladas
incendiadas
as línguas
despertam pétalas
nos corpos de água
sopram segredos do éden –
como gravar na pele
em palavras eternas
o amor.
Escrito por reuben da cunha às 16h59
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